Prefeituras do Paraná gastaram quase R$ 1,2 bilhão com shows em seis anos e meio

Levantamento do TCE-PR revela mais de 10,9 mil empenhos para eventos artísticos e aponta casos que podem ter utilizado recursos públicos de forma irregular

As prefeituras do Paraná gastaram aproximadamente R$ 1,2 bilhão com shows e eventos artísticos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026. O levantamento foi divulgado nesta segunda-feira (24) pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) e coloca sob os holofotes a dimensão dos recursos públicos destinados a apresentações musicais nos municípios paranaenses.

Durante o período analisado, 1.158 artistas, duplas e grupos musicais foram contratados pelas prefeituras. Dos 399 municípios do Estado, apenas seis não registraram gastos com esse tipo de evento dentro dos critérios utilizados pelo Tribunal de Contas.

O levantamento contabilizou 10.900 empenhos, considerando despesas de pelo menos R$ 20 mil classificadas nas categorias de “Festividades e Homenagens” e “Contratação Artística e Cultural”. O novo painel do TCE-PR permite consultar os valores gastos individualmente por município, ano, mês e artista.

R$ 403,5 milhões somente em 2025

Os números mostram que os gastos cresceram significativamente nos últimos anos.

Em 2021, ainda sob os efeitos da pandemia, foram empenhados R$ 25,1 milhões. O valor subiu para R$ 292,2 milhões em 2024 e chegou a R$ 403,5 milhões em 2025, o maior volume registrado no período analisado.

Somente nos primeiros seis meses de 2026, os municípios já empenharam aproximadamente R$ 144,7 milhões com shows e eventos artísticos.

O crescimento chama atenção principalmente porque os recursos utilizados pelas prefeituras precisam disputar espaço com outras necessidades dos municípios, como saúde, educação, infraestrutura, assistência social e manutenção dos serviços públicos.

TCE identifica possíveis irregularidades

O levantamento não afirma que os gastos com shows sejam, por si só, ilegais. O próprio TCE-PR ressalta que o painel tem caráter informativo e busca ampliar a transparência e o controle social.

Entretanto, o Tribunal identificou situações com indícios de possível utilização irregular de recursos públicos para o pagamento de apresentações artísticas.

Entre os recursos que aparecem em situações que serão analisadas estão verbas destinadas à saúde, educação básica, Fundo do Idoso, Fundo Municipal de Reequipamento do Corpo de Bombeiros e iluminação pública. Nos casos em que for comprovado o uso irregular, o TCE-PR informou que poderá instaurar procedimentos de fiscalização.

Quem recebeu mais dinheiro?

Entre os artistas que mais receberam recursos das prefeituras paranaenses no período estão:

  • Fernando & Sorocaba: aproximadamente R$ 18,1 milhões;
  • Guilherme & Benuto: R$ 13 milhões;
  • Ana Castela: R$ 12,6 milhões;
  • Maiara & Maraisa: R$ 11,2 milhões;
  • Luan Pereira: R$ 11,1 milhões.

Também aparecem na lista artistas como Leonardo, Rio Negro & Solimões, Léo & Raphael, Mato Grosso & Mathias, Bruno & Marrone e João Bosco & Vinícius. O valor médio das contratações analisadas ficou em aproximadamente R$ 112,3 mil.

Apenas seis municípios não registraram gastos

O levantamento chama atenção por outro motivo: dos 399 municípios paranaenses, somente seis não apresentaram registros desse tipo de despesa no período analisado.

São eles:

Campo do Tenente, Guaporema, Nova Cantu, Paulo Frontin, Pinhal de São Bento e Piraquara.

Isso significa que 393 municípios tiveram algum registro de gasto público com shows e eventos artísticos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026, segundo os critérios do painel.

Dinheiro público precisa ser acompanhado pela população

O levantamento abre uma discussão importante sobre as prioridades dos municípios.

Eventos culturais podem movimentar comércio, turismo e economia local e fazem parte das políticas públicas municipais. O problema surge quando os gastos não são acompanhados de transparência, planejamento ou quando recursos vinculados a áreas essenciais são utilizados de maneira irregular.

Por isso, mais importante do que simplesmente questionar a realização de shows é acompanhar quanto cada prefeitura gastou, de onde veio o dinheiro e quais outras áreas receberam investimentos no mesmo período.

O próprio TCE-PR disponibilizou a ferramenta para que o cidadão possa fazer esse acompanhamento e comparar os gastos com eventos com investimentos em saúde e educação.

Um número que merece atenção

R$ 1,2 bilhão é um valor expressivo para os municípios paranaenses.

A partir de agora, a população pode consultar quanto a própria prefeitura gastou com artistas, quais foram os cachês pagos e de onde vieram os recursos.

No Paraná, a festa pode continuar. Mas a conta também precisa ser pública, transparente e fiscalizada.

Veja também