Filas do SUS no Paraná diminuem, mas acesso a especialistas ainda desafia municípios

Estado anuncia redução de 41% na fila de cirurgias e de 33% na espera por consultas e exames; apesar dos avanços, diferenças regionais e dificuldades de atendimento continuam no centro do debate sobre a saúde pública.

Paraná, 28 de outubro de 2026 — O acesso a consultas com especialistas, exames e cirurgias continua sendo um dos principais desafios da saúde pública nos municípios do Paraná. Embora o governo estadual tenha divulgado resultados positivos na redução das filas do Sistema Único de Saúde (SUS), a organização do atendimento e as diferenças entre as regiões ainda exigem atenção das autoridades.

Na prestação de contas apresentada em 20 de outubro à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou que a quantidade de usuários aguardando cirurgias eletivas no Sistema de Regulação Ambulatorial do Paraná (CARE) caiu 41%. A fila de consultas e exames especializados apresentou redução de 33%.

Os dois resultados superaram as metas estabelecidas para o período, de 26% e 30%, respectivamente.

Os números representam avanços na gestão estadual, mas não significam que todos os pacientes estejam recebendo atendimento dentro do prazo necessário ou que as dificuldades tenham sido eliminadas em cada município.

Por que o atendimento ainda é um desafio?

O SUS funciona de maneira integrada entre União, estados e municípios. Em grande parte das cidades paranaenses, as unidades básicas de saúde são a principal porta de entrada para os pacientes.

Quando uma pessoa precisa de um cardiologista, neurologista, ortopedista ou outro especialista, por exemplo, o atendimento pode depender de encaminhamento e agendamento pela rede de regulação.

O mesmo acontece com determinados exames e cirurgias, que exigem estrutura hospitalar e profissionais especializados nem sempre disponíveis no município onde o paciente mora.

Essa organização regional permite compartilhar serviços de maior complexidade, mas também pode exigir deslocamentos e aumentar a dependência de vagas oferecidas em cidades de referência.

Entre os desafios estão a disponibilidade de especialistas, a capacidade dos hospitais, o transporte de pacientes e a atualização das listas de espera.

Governo estadual apresenta redução nas filas

Segundo a Sesa, o programa Opera Paraná está entre as estratégias utilizadas para ampliar a realização de cirurgias eletivas.

A prestação de contas do segundo quadrimestre de 2026 também apresentou outros indicadores da rede pública:

  • Redução de 41% na quantidade de usuários aguardando cirurgias eletivas no CARE.
  • Redução de 33% na fila de consultas e exames especializados.
  • Aumento de 21,5% nos atendimentos ambulatoriais das unidades próprias do Estado.
  • Cobertura de 97,25% da população pela Atenção Primária à Saúde.
  • Regulação ambulatorial abrangendo 94% dos estabelecimentos contratualizados pela Sesa.

No recorte hospitalar de maio e junho, foram registrados 120.469 procedimentos de média e alta complexidade nos serviços próprios e privados contratados pelo SUS, incluindo 55.263 procedimentos cirúrgicos.

Os dados foram apresentados pelo secretário estadual da Saúde, César Neves, durante audiência pública na Alep.

É importante observar que os percentuais divulgados dizem respeito aos indicadores acompanhados pelo Estado. Eles não apresentam, isoladamente, o número atualizado de pacientes aguardando atendimento em cada uma das 399 cidades paranaenses.

Municípios dependem de uma rede regionalizada

A organização do SUS envolve responsabilidades compartilhadas.

As prefeituras atuam principalmente na atenção básica, na identificação das necessidades dos pacientes e no encaminhamento para os serviços especializados. Já o Estado participa da regulação, do financiamento e da organização regional da assistência, enquanto a União também contribui com recursos e políticas nacionais.

Nos municípios de menor porte, o acesso a determinadas especialidades depende frequentemente de serviços localizados em centros regionais.

No Oeste do Paraná, por exemplo, cidades como Tupãssi, Cafelândia, Jesuítas e Assis Chateaubriand integram uma região em que a articulação entre municípios e serviços de referência é importante para garantir a continuidade do atendimento.

Entretanto, sem dados individualizados e atualizados das filas dessas cidades, não é possível afirmar que uma delas tenha atualmente situação mais grave que as demais.

Para uma avaliação precisa, é necessário verificar quantas pessoas aguardam consultas, exames e cirurgias, quais especialidades apresentam maior demanda e qual é o tempo de espera.

Investimento público ultrapassa R$ 5 bilhões

A Secretaria de Estado da Saúde informou que, entre janeiro e agosto de 2026, empenhou R$ 5,18 bilhões em ações e serviços públicos de saúde.

O valor correspondeu a 13,46% da Receita Líquida de Impostos considerada no demonstrativo apresentado, acima do mínimo constitucional de 12% exigido dos estados.

A pasta também destacou investimentos em infraestrutura e ampliação de serviços.

Apesar disso, o volume de recursos empenhados não representa, necessariamente, despesas integralmente pagas nem permite concluir, por si só, que todas as demandas locais foram atendidas.

A efetividade dos investimentos deve ser avaliada por indicadores como tempo de espera, quantidade de atendimentos realizados, disponibilidade de profissionais e resultados para os pacientes.

A diferença entre reduzir a fila e resolver o problema

A redução das listas de espera é um indicador relevante, mas precisa ser analisada em conjunto com outras informações.

Uma fila pode diminuir porque mais procedimentos foram realizados, porque cadastros duplicados foram retirados ou porque registros desatualizados foram corrigidos. Essas situações têm efeitos diferentes sobre o acesso efetivo da população.

Por isso, a análise completa deve considerar não apenas o número de pessoas na fila, mas também o tempo médio e máximo de espera, a gravidade dos casos e a quantidade de novos pacientes encaminhados ao sistema.

A transparência dessas informações é fundamental para que gestores, vereadores, conselhos municipais de saúde e a população possam acompanhar a qualidade do atendimento.

O que precisa melhorar?

A ampliação do acesso a especialistas exige medidas que vão além da abertura de vagas pontuais.

Entre as alternativas estão o fortalecimento da atenção básica, a contratação de serviços especializados, a melhoria dos sistemas de regulação, o uso da telessaúde quando clinicamente adequado e a organização do transporte sanitário.

Também é necessário que as administrações municipais mantenham os cadastros atualizados e ofereçam informações claras aos pacientes sobre os encaminhamentos.

A participação dos conselhos de saúde e a fiscalização dos contratos públicos são importantes para verificar como os recursos estão sendo utilizados.

Saúde pública precisa ser avaliada pela realidade dos pacientes

Os números apresentados pelo governo estadual indicam melhora em indicadores importantes do SUS paranaense. Ao mesmo tempo, a existência de filas remanescentes demonstra que o trabalho de ampliação do acesso ainda não está concluído.

O desafio para os próximos meses será verificar se a redução registrada nos sistemas estaduais também se traduz em menor tempo de espera nos municípios e em atendimento mais rápido para quem precisa de consultas, exames e cirurgias.

Mais do que anunciar investimentos ou apresentar percentuais, o resultado esperado pela população é conseguir atendimento adequado, no momento necessário e com continuidade do cuidado.

A saúde pública do Paraná reúne avanços mensuráveis e desafios que precisam continuar sendo acompanhados com transparência, fiscalização e dados atualizados de cada região.

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