Uma das principais transformações da agricultura brasileira nasceu no Paraná e mudou a forma como milhões de hectares são cultivados. O Sistema Plantio Direto, desenvolvido em escala comercial no Estado na década de 1970, tornou-se uma referência mundial no manejo sustentável do solo e hoje ajuda produtores a enfrentar períodos de estiagem e chuvas intensas.
Embora os primeiros estudos sobre a técnica tenham surgido nos Estados Unidos na década de 1940, foi no município de Rolândia, no Norte do Paraná, que o plantio direto começou a ser utilizado comercialmente em grande escala, em 1972. A mudança surgiu como resposta aos graves problemas de erosão que atingiam as lavouras paranaenses.
Atualmente, entre 35 milhões e 40 milhões de hectares são cultivados pelo sistema no Brasil. A técnica também é utilizada em países como Estados Unidos, Argentina e Austrália.
Menos erosão e mais proteção para o solo
Ao contrário do modelo convencional, o plantio direto evita o revolvimento intenso da terra. As sementes são colocadas diretamente em pequenos sulcos, enquanto a superfície permanece protegida por palha e restos vegetais.
Essa cobertura ajuda a reduzir a erosão provocada pelas chuvas, conservar a umidade, diminuir as variações de temperatura do solo e favorecer a atividade de microrganismos.
O sistema completo é baseado em três pilares: mínimo revolvimento do solo, cobertura permanente da superfície e rotação diversificada de culturas.
Uma pesquisa divulgada em 2025 pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), com apoio do Sistema FAEP, apontou que cerca de 20% dos produtores paranaenses adotam o Sistema Plantio Direto em sua forma completa.
O levantamento também mostrou a importância da técnica para o controle da erosão. Propriedades que utilizam corretamente o sistema apresentam os menores índices de perda de solo, enquanto 64% dos agricultores que ainda utilizam o modelo convencional relataram problemas de erosão.
Paraná ajudou a transformar a agricultura
A expansão do plantio direto ganhou força principalmente a partir dos anos 1990. Entre as safras de 1991/92 e 2002/03, a área cultivada pelo sistema no Brasil saltou de aproximadamente 1 milhão para 18,7 milhões de hectares.
O crescimento foi impulsionado pela evolução das máquinas agrícolas, pelo desenvolvimento de novas tecnologias para controle de plantas daninhas e pela adaptação do sistema às diferentes regiões produtoras do país.
No Paraná, produtores e pesquisadores tiveram papel importante nesse processo, aperfeiçoando o manejo e mostrando que era possível produzir preservando a estrutura do solo.
Técnica também ajuda diante das mudanças no clima
Além de reduzir a erosão, o plantio direto ganhou ainda mais importância diante de eventos climáticos extremos.
A presença de palha e de raízes no solo melhora a infiltração da água durante períodos de chuva intensa e, ao mesmo tempo, contribui para conservar a umidade durante períodos prolongados de estiagem.
Com o passar dos anos, o aumento da matéria orgânica melhora as características físicas, químicas e biológicas do solo, aumentando sua capacidade de armazenar água e disponibilizar nutrientes.
Em um Estado como o Paraná, que possui uma das agriculturas mais fortes do país e frequentemente enfrenta períodos de excesso de chuva ou de seca, essa característica se torna especialmente importante.
Economia para o produtor
O sistema também representa economia no campo. Como elimina operações como aração e gradagem, o produtor reduz o consumo de combustível, o desgaste das máquinas e as horas de trabalho necessárias para preparar a terra.
Segundo o pesquisador Eduardo Fávero Caires, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), apenas a eliminação das operações convencionais de preparo do solo pode representar uma economia entre R$ 180 e R$ 350 por hectare.
A implantação, porém, exige planejamento. Os primeiros anos costumam ser os mais desafiadores, enquanto os benefícios aumentam conforme o solo se recupera e o sistema é consolidado.
Uma inovação que nasceu no Paraná e ganhou o mundo
O plantio direto mostra como a experiência dos produtores paranaenses, aliada à pesquisa e à tecnologia, ajudou a transformar a agricultura.
O que começou como uma resposta aos problemas de erosão enfrentados no Paraná acabou se tornando uma das principais ferramentas de conservação do solo utilizadas pela agricultura moderna.
Mais de cinco décadas depois da primeira experiência comercial em Rolândia, a técnica continua sendo aprimorada e representa um dos exemplos de inovação paranaense que ultrapassaram as fronteiras do Estado e passaram a fazer parte da agricultura mundial.
FONTE: tribunapr.com.br / Por Julia Moreira